sexta-feira, 5 de abril de 2013

Uma História de Amor e Fúria



Antes de qualquer coisa, engana-se quem imaginou que essa animação seria para crianças. Longe disso. 

A ideia do diretor e roteirista Luis Bolognesi foi de, através de uma animação, revelar um outro ponto de vista da História do Brasil. Aquela que não é compartilhada pelos livros de História que lemos na escola. A história de homens e mulheres que lutaram por um ideal, mas que apesar disso, não viraram estátua e canções não foram compostas em seus nomes. 

Com a criação de personagens fortes e diálogos bem construídos, Bolognesi faz com que o reoteiro cresça e se desenvolva de forma inteligente juntamente com os próprio personagens. No início do filme, vemos um jovem índio que está disposto a ajudar o seu povo, mas que não sabe ao certo como fazê-lo. Em Janaína, vemos apenas a tradição imposta pela tribo indígena ao lugar da mulher. Ao decorrer do longa, ambos vão crescendo de forma a se tornarem figuras importantes contra à opressão que sempre se levanta, cada uma à sua época. 

A sensibilidade de Bolognesi ao retratar os oprimidos em cada um dos episódios da História do Brasil é um grande marco do filme, assim como cada uma das escolhas das músicas quem compoem a trilha sonora. Outra idéia empregada de forma interessante foi a ligação criada entre a História do Brasil e a mitologia tupinambá de forma fantasiosa para que houvesse a travessia entre os diferentes episódios da História. 


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Infelizmente, a trama acabou ficando corrida em algumas partes devido à falta de tempo para desenvolver todos os aspectos abordados. No entanto, isso não tira a maestreza e a genialidade de Bolognesi ao escolher tais aspectos para integrarem o roteiro. 

A escolha da técnica utilizada nos animes, de 8 frames por segundo, possibilitou a priorização dos diálogos ao invés da dramatização visual, o que anulou um efeito visto nos desenhos da Disney (aqueles movimentos bem marcados), que o próprio diretor considera como overacting.


A equipe do WLTM foi convidada para participar de uma exibição exclusiva do filme, à lá cabine de imprensa, no dia 23 de fevereiro. Logo depois disso, tivemos a oportunidade de conversar diretamente com Luis Bolognesi, diretor/produtor/roteirista de 'Uma História de Amor e Fúria', que conversou com a gente por quase 2 horas. Destacamos aqui algumas das resposta dele:

Pergunta: O nome do filme anteriormente era 'Lutas'. O que levou você e sua equipe a mudarem o nome?
Resposta: Nos últimos dois anos de produção do filme, pesquisamos com o público o que eles achavam do nome. Essa pesquisa revelou uma grande resistência por parte do público feminino jovem que entendia 'Lutas' como algo ligado ao Ultimate Fight ou Vale-Tudo. E o filme não tem nada a ver com isso, né? Por isso, optamos por 'Uma História de Amor e Fúria'. A decisão não teve nada a ver com a idéia de marketing ou de vender ingressos... 

Pergunta: Por que a escolha de retratar essa trama através da animação?
Resposta:  Foi a união entre duas das minhas paixões. Desde os 13 anos eu sou apaixonado pelo estilo de História em Quadrinhos das Graphic Novels. Sempre comprei revistas nesse estilo. Principalmente a americana Heavy Metal e a brasileira Animal. Também sempre fui apaixonado pela História do Brasil. Logo após o fim do meu tabalho em 'O Bicho de Sete Cabeças', começamos a pensar num próximo projeto e eu tive essa idéia inconsequente e irresponsável - risos - de unir Graphic Novels com a História do Brasil.

Pergunta: Como foi o processo para chegar na idéia de começar com cenários mais simples e chapados e terminá-lo usando, inclusive, técnicas de 3D?
Resposta: Em relação aos cenários iniciais, a ideia da nossa diretora de arte foi fazer um paralelo entre o amadurecimento do personagem principal e as estações do ano, usando diferentes paletas de cores em cada um dos episódios históricos. 

  terceiro episódio - outono

Ao longo de todo o processo de produção, nós nos aperfeiçoamos tecnicamente e isso ficou bem nítido inclusive no último episódio do filme. A cena final utiliza as técnicas em 3D porque a gente percebeu que seria impossível fazê-la em 2D tendo aquela sensação sinestésica do vôo. Mas a ideia era que essa cena fosse com um 2D-look para que se encaixasse com todo o resto. 

Pergunta: O filme nos passa a idéia de que a forma como aprendemos a história do nosso país te incomoda. É isso mesmo?
Resposta: É exatamente isso. A história "oficial", aquela que aprendemos na escola foi  contada pelos senhores de engenho e bandeirantes, não pelos escravos e índios. Nós fizemos essa busca histórica atrás desses pontos de vista que foram varridos pra baixo do tapete. A história da Balaiada, por exemplo, foi contada por aqueles que foram contratados pelos regentes e que tinham ordens de massacrar 'aquele bando de ignorantes que tavam fazendo bagunça no Maranhão'. 

Fruto deste projeto e de todas as pesquisas históricas realizadas, o diretor Luis Bolognesi escreveu um livro e gravou um documentário chamado 'Meus Heróis Não Viraram Estátua'.

Deixamos aqui nosso abraço ao Bolognesi, que foi super atencioso com a gente.


O filme estréia HOJE nos cinemas. Corre que vale a pena.
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