sábado, 10 de março de 2012

"Wall Street" Sob o Aspecto Econômico e Sociológico

         É com grande prazer que publicamos aqui no We Like to MOVIE it um artigo escrito por nosso leitor e amigo, Vagner Leme, sobre a influência do caráter econômico sob o sociológico dentro do filme Wall Street, de 1987. Para os fãs do filme, é obrigatório que 'percam' alguns minutos para ler a matéria. Está simplesmente fantástica.


Já deixamos aqui nosso agradecimento pela contribuição excepcional do Vagner. Será sempre muito bem vindo. 


Wall Street: poder e cobiça (1987)


O mais importante sobre o dinheiro é que ele induz você a fazer o que não quer”. (Lou Mannheim, Wall Street: poder e cobiça)


Talvez você, caro leitor, esteja pensando, citar dinheiro e suas tentações não é a melhor forma de iniciar um artigo que pretende falar sobre um filme. Mas não quando se trata de “Wall Street: poder e cobiça”.


Produzido no ano de 1987, com direção e roteiro de Oliver Stone, e com um bom elenco, Michael Douglas, Charlie Sheen, Daryl Hannah e Martin Sheen, essa produção, a época nem tão pretensiosa assim (pois teve um orçamento limitado), acabou se tornando um clássico, um filme intrigante, envolvente, que mostra o mundo dos negócios no centro do capitalismo mundial (Wall Street), exibindo seus meandros, suas torturas e sua corrupção, como poucos já viram e como poucos conhecem.


Bud Fox (Charlie Sheen), um jovem corretor de ações, sonhador e determinado, com aquele ímpeto típico e inerente dos jovens ambiciosos. Um jovem com aquela capacidade de olhar para o futuro com ânsia de conquistar o inconquistável. Bud almeja se tornar um grande investidor, tal como seu maior ídolo Gordon Gekko (Michael Douglas).


Um filme que mesmo depois de todos esses anos continua sendo atual, pois com todo o materialismo e uma certa futilidade que impera no mundo contemporâneo, onde o ter é mais importante que o ser, podemos observar, e nos questionar em diversos momentos dessa obra, ate que ponto realmente vale a pena fazer tudo pelo dinheiro? É realmente benéfico colocar o caráter, a honestidade e todos os valores morais e éticos em segundo plano na busca da riqueza? Principalmente quando nessa busca, a amizade, e mesmo o amor pelo próximo, e também por nós mesmos são deixados completamente de lado?



Alem de falar propriamente da obra, tem vários aspectos subliminares que esse filme nos apresenta, como a falsidade e o oportunismo que envolve o dinheiro. O patrão que te dá um tapinha nas suas costas (como ocorre com Bud), quando você esta indo bem e trazendo lucros: "Quando olhei pra você eu já sabia que você tinha potencial”, e o mesmo patrão que te esnoba e humilha quando você não traz mais lucros e perde seu “valor”: "Quando eu botei os olhos nele eu já sabia que não prestava".



Não vejo como algo negativo a busca pelo dinheiro, a maioria das pessoas procura o dinheiro para obter sua segurança financeira pessoal. Algumas procuram pelo status que o dinheiro oferece, outros pelo que ele lhes permite fazer. Há pessoas ricas, por exemplo, que fazem grandes doações para universidades e fundações. Já outros usam o dinheiro para adquirir influencia e poder através do controle de meios de comunicação ou de grandes empreendimentos comerciais e financeiros.


Nos anos 1960 era moda entre os jovens zombar do dinheiro como se ele fosse um mal em si mesmo. Nos anos 1980 (e isso é bom ser observado, porque o personagem de Charlie Sheen em Wall Street é um típico produto da geração dos anos 80), houve uma tendência para o extremo oposto, e "correr atrás" tornou-se o slogan que inspirou, e ainda inspira a meu ver, a nossa sociedade. Hoje em dia é bem comum pessoas dizerem que o dinheiro não é tudo na vida, mas sim a única coisa.


Acredito que todas as pessoas gostam de viver bem e ter uma vida boa. Mas é importante nos lembrarmos, que o dinheiro pode fazer a vida mais fácil, mas não necessariamente melhor. Quando os bens materiais são mais difíceis de serem obtidos, nós os apreciamos mais quando finalmente os conseguimos. E o fato de  muitas vezes termos que levar uma vida dura para conseguir certas coisas, nos faz dar ainda mais valor a esses bens materiais.


Em muitos momentos do filme, principalmente quando Bud começa a ganhar muito dinheiro ele passa a se questionar... Acho interessante aquela cena em que ele fica na varanda de seu apartamento, pensativo, se auto questionando... “Quem sou eu?” O conflito interno pelo qual Bud passa a partir desse momento mostra a distinção entre Bud e Gekko. No fundo, e isso fica evidente quando Bud faz o negocio de compra da Blue Star, pressionando inclusive seu pai, Bud mostra que ele não estava interessado em ter o dinheiro apenas pelo dinheiro, mas também queria construir coisas concretas, e através dessas realizações, direta e indiretamente ajudar outras pessoas. Ao contrario de Gekko, que logo em seguida mostra que não se importa e não liga pra ninguém, que não reconhece amizade, lealdade e amor em ninguém, apenas em si próprio.


Na cena em que Bud o questiona: “Quando é que tudo isso acaba? Quantos iates você precisa pra ficar satisfeito? Quanto é que basta?”.


Essa diferença entre os dois é importante, porque muitas pessoas quando analisam homens de negócios tem uma mania, totalmente equivocada a meu ver, de joga-los todos no mesmo saco. São todos exploradores! E pra mim, não é bem assim. Uma das lições que esse filme traz é a de que o dinheiro é importante, mas nunca podemos considerá-lo a coisa mais importante da vida. O dinheiro é o meio pelo qual um indivíduo pode obter comida, casa, roupas e lazer, que estão entre as coisas essenciais para uma boa vida. E o dinheiro também pode ser a maneira de produzir progresso econômico, oportunidades e empregos pra muita gente. Alem disso o dinheiro é o meio pelo qual um indivíduo pode conseguir ajudar outras pessoas menos afortunadas.


A ganância e a ambição exaltadas no fabuloso discurso de Gekko na Papeis Teldar, ao contrario do que muitos podem pensar, na minha concepção, são sim coisas boas, mas a ganância e a ambição só podem ser boas quando são usadas para bons propósitos.


A questão é, senhoras e senhores, que a ambição, na falta de melhor palavra, é benéfica, é correta. A ambição funciona, a ambição esclarece, abre caminho e capta a essência do espírito evolutivo. A ambição, em todas as suas formas, ambição pela vida, pelo dinheiro, pelo amor, sabedoria, a ambição tem marcado a evolução da humanidade...”.


Outro fator importante do filme é como pouco a pouco pessoas que supostamente “amam” você, começam a te abandonar em virtude do dinheiro. Como homem eu acredito piamente que não existe nenhum homem que não goste de estar sempre cercado por mulheres bonitas, atraentes, mas o âmago da questão é: essas mulheres estão do seu lado porque realmente amam você, ou por causa do seu dinheiro?



Deve ser duro para um indivíduo que tem muito dinheiro se questionar nesse sentido, muitos podem ate não ligar, mas no momento em que ele realmente amar alguém, será que em algum momento ele vai se questionar se essa pessoa realmente o ama, ou ama a sua conta bancária?


Revendo esse filme há algum tempo atrás, principalmente no paralelo em que esta obra faz entre as relações humanas e o dinheiro, eu me lembrei das palavras da escritora Ayn Rand, em que ela fala do amor.


"O amor é uma mercadoria! Uma mercadoria como outra qualquer. A diferença entre o amor e as demais mercadorias é a moeda de troca para adquiri-lo. No amor, a moeda de troca não é o dinheiro, mas sim a virtude! Só podemos de fato amar um ser humano, quando esse ser humano tem qualidades, virtudes que despertem o nosso respeito e admiração, fazendo assim com que verdadeiramente possamos amar esse ser humano".


Bud passou por essa prova, ou melhor, ele impôs essa prova a Darien, e ela fracassou. Quando ele diz a ela, após o rompimento com Gekko: “Nós podemos sobreviver sem Gordon Gekko”, atentem para a cara que ela faz ao ouvir isso. No momento em que ela percebeu que o seu status poderia ser ameaçado, ela pulou fora e o largou. Provou naquele momento que não o amava de verdade, que ele era apenas um homem "bom" pra ela até aquele momento. E no instante em que o próprio Bud se dá conta disso, a irritação toma conta dele: “Acho que sem o dinheiro e o selo de aprovação do Gordon eu não sou mais um bom investimento, não é? Você é a melhor que eu podia comprar, Darien?”. E ao final da discussão ela simplesmente joga as chaves do apartamento dele no chão, um gesto determinante e arrebatador, como quem diz, você não me interessa mais, não serve mais pra mim.


É curioso, pois a vida é como uma montanha russa. Por mais dinheiro que você tenha, sempre vai ter bons e maus momentos, vai passar por altos e baixos, e é justamente nesses momentos em que você está por baixo que as pessoas que realmente amam você estarão do seu lado. No filme, isso fica bem caracterizado, não apenas na relação de Bud com Darien, mas em outros momentos também. Porém, na relação dos dois, podemos ver, enquanto ele, Bud, estava no alto, ele era o “cara”, e ela o adorava, como adorava tudo que ele podia proporcionar a ela, viagens, diversões, jantares, bons vinhos, boas roupas etc. No entanto, no momento em que ele ficou por baixo, ela foi a primeira a largá-lo.


O ex-secretário de Estado norte americano, Henry Kissinger, uma vez, em um encontro com o líder chinês Mao Tse-Tung, em 1972, foi questionado pelo próprio: Qual é seu segredo, como um homem feio e gordo como você consegue tantas mulheres bonitas? Henry Kissinger respondeu: “Poder, é o melhor afrodisíaco”.


Isso evidencia, e eu pessoalmente acredito que, o dinheiro, o status social e o poder, podem realmente fazer com que um homem “conquiste” varias mulheres, mas sem sombra de duvidas será uma conquista apenas superficial, somente ilusória, o amor dessas mulheres, certamente não será conquistado pelo dinheiro.


                Em relação a direção do filme eu só posso falar coisas ótimas. Embora eu tenha uma certa reserva com o Oliver Stone, pois o acho meio tendencioso às vezes, em Wall Street ele esta de parabéns. Quanto ao elenco, Charlie Sheen, Martin Sheen e Daryl Hannah estão todos, a meu ver, no mesmo nível. Charlie e a Dyrel quando surgiram tinham pinta de que se tornariam lendas do cinema, gosto muito dos dois, mas eles são atores que, depois de alguns bons filmes no inicio de suas respectivas carreiras, ficaram pelo caminho e não conseguiram voar muito alto. Já Martin Sheen, no filme tem a atuação que se espera dele. Sempre foi um ator do segundo escalão.


                Quanto ao Michael Douglas, esse foi o papel da vida dele. Ele matou a pau, foi simplesmente perfeito e com todo merecimento ganhou o Oscar de Melhor Ator por esta atuação. Vi uma entrevista com Oliver Stone em que ele afirma que havia muita desconfiança em relação ao Michael Douglas nesse papel. Muitos acreditavam que ele não conseguiria dar conta e foi justamente o contrario: ele surpreendeu a todos. Várias cenas memoráveis. A cena mais marcante de Michael Douglas nesse filme, o discurso dele na Papeis Teldar, glorificando a ganância. Toda vez que assisto esse filme acabo reprisando essa cena, é simplesmente incrível, a forma como ele fala, o olhar, a expressão facial. Nota 10.


               Pra encerrar, eu penso que a grande lição que esse filme passa é que a grandeza de uma pessoa, de uma sociedade ou mesmo de uma nação, não deve ser medida unicamente e exclusivamente em termos de sua riqueza material. Acho que é importante sempre nos perguntarmos, como queremos que a nossa geração seja lembrada daqui cinqüenta anos, por exemplo? Como pessoas que ganhavam rios de dinheiro, construíam os mais altos edifícios, dirigiam os carros mais velozes e usavam as roupas mais finas? Como uma sociedade cujas "estrelas" eram mais admiradas que seus grandes professores, as pessoas bonitas mais do que as interessantes, os escândalos mais do que as boas ações? Ou queremos ser lembrados como uma geração que criou grandes obras na musica, nas artes cênicas, na literatura, na filosofia, e como uma geração que fez o possível pra preservar o meio ambiente contribuindo assim para um mundo melhor? Onde a convivência pacifica, harmônica e justa são, ao menos, melhores no nosso planeta?


Gostaria também de agradecer a minha colega Mackenzista, Júnia Cidade, pelo convite que me fez pra escrever esse artigo. Um forte abraço!

Vagner Leme

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