segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Filme da semana: 21 gramas



Vagner Leme:

Quando 21 gramas foi lançado, no inicio dos anos 2000 ele passou despercebido por mim. Eu não tinha lido nada a respeito desta obra, não tinha se quer ouvido falar nesse filme. Ate que em 2009 me recomendaram ele. Ao assistir 21 gramas fiquei maravilhado e muito pensativo. Pois 21 gramas alem de ser uma obra prima é um filme que provoca muitas reflexões a respeito da vida e dos acasos desta, da nossa existência nesse planeta, da religião e seu fanatismo, como uma coisa na vida esta diretamente ligada a outra, e como, de uma tragédia pode surgir algo bom.

O filme conta com três atuações brilhantes de Sean Penn, Naomi Watts e Benicio Del Toro. Os três encarnam seus personagens com muita energia e vibração, prendendo a atenção do telespectador.

O diretor Alejandro González Iñárritu promove não uma inovação, mas uma coisa pouco comum. As cenas do filme não estão em forma linear, as cenas não reproduzem em ordem cronológica os acontecimentos da trama, o que no inicio provoca uma certa “confusão” em quem assiste o filme pela primeira vez. Mas depois de alguns minutos o telespectador se situa e a coisa passa a fazer sentido.

A trama exibe a trajetória dos três personagens principais Paul Rivers (Sean Penn), Cristina Beck (Naomi Watts) e Jack Jordan (Benicio Del Toro) de forma paralela, e como no ápice do filme os três personagens se encontram encarando problemas diferentes tudo em virtude de uma tragédia que acaba por provocar consequências diretas na vida dos três personagens, mesmo eles ainda não se conhecendo a época do ocorrido. 

"Sabe o que eu senti quando a mamãe morreu? Eu não entendia como você falava com as pessoas, como você podia rir. Como podia brincar com a gente. Pai, isso é mentira, a vida não continua". (Cristina Beck)  



Não vou me aprofundar nos pormenores do filme, pois 21 gramas é o tipo de filme que se você falar muito sobre a trama ele acaba perdendo a graça. Vou apenas atentar para uma, das muitas questões que o filme proporciona, como por exemplo, os males do fanatismo religioso e as contradições do cristianismo (e de qualquer outra religião).

Para as pessoas que gostam dos aspectos subliminares nos filmes é interessante notar a guerra psicológica que o personagem Jack Jordan (Benicio Del Toro) passa ao longo do filme. Tudo decorrido do seu fanatismo religioso. O personagem passa de desvairado social (alcoólatra, viciado em drogas e criminoso) a homem de família, trabalhador, dedicado ao máximo a religião que não tolera o uso de cigarros, bebidas, e mesmo as musicas, só se for gospel.

Desde os meus quinze, dezesseis anos, sempre tive uma tendência a ver com muita desconfiança fanáticos religiosos, independentemente do seguimento religioso. Sempre achei muito estranho essa coisa de querer demonstrar, as vezes gritar a fé que professam para todos. Longe de interferir na liberdade religiosa ou nas escolhas individuais, pois sou um defensor ferrenho dessas duas liberdades, como de outras formas de liberdade também.

E por que então observo essas manifestações com muita desconfiança?

Porque religião, a meu ver, é uma coisa extremamente pessoal e particular. Acho que isso vem muito da forma como fui educado. Minha família, como a ampla maioria das famílias brasileiras é cristã, e eu, assim como muitos brasileiros, nasci, cresci e fui educado de acordo com os preceitos cristãos. Porem, quando completei uma certa idade, minha crença na bíblia, em Jesus, e em Deus ficou muito abalada. Justamente por ter passado a observar as contradições do cristianismo (muitas delas são expostas no filme, como o pai que diz ao filho “nada de violência nessa casa” e logo em seguida bate no filho como forma de puni-lo por um comportamento inadequado), e posteriormente de todas as outras religiões. Apesar de não praticar nenhuma religião, tenho muito respeito por todas elas, e digo que a minha desconfiança em relação a pessoas que levam religião ao fanatismo neurótico vem muito da observação das pessoas a minha volta. Eu acredito que a vontade de Deus (caso ele exista) se expressa nos homens principalmente através das ações que eles realizam pelo próximo, para o próximo e principalmente por si próprios. Por isso modelo a minha vida seguindo a idéia do Não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você”. Eu não sei se Deus existe ou não, e francamente não me importo com isso, mas se existe um objetivo na vida é ser feliz, é detectar aquilo que te agrada e viver isso intensamente. Dessa forma qualquer coisa que, de algum modo, cerceie o que te faz feliz não é bom. Tomar um porre de álcool, cair de bêbado, chegar em casa e espancar sua esposa não é algo aceitável. Mas também não vejo o outro extremo (não beber uma gota de álcool) como algo legal e totalmente saudável. Sei que isso parte muito da escolha individual de cada um. Mas se um ser humano, por exemplo, gosta de tomar uma cerveja, ou beber um pouco de vinho todos os dias, por qual motivo não deveria faze-lo? Simplesmente pelo fato de uma doutrina religiosa dizer que é ruim beber álcool, mesmo que de forma equilibrada?
  
"Inferno? O inferno esta aqui! Ele ta bem aqui! Pedir perdão? Eu fiz tudo que ele mandou. Eu mudei! Eu dei a ele a minha vida. E ele me traiu. Deus sabe ate quando um fio do seu cabelo cai". (Jack Jordan)


Sempre achei que a vida é meio como a política. O segredo de um grande político é o ponto de equilíbrio. Os grandes políticos são aqueles que conseguem manter as suas convicções, mas se posicionar ao centro para angariar o apoio daquelas pessoas que não pendem nem para um lado, nem para o outro. Na vida, o segredo também é o ponto de equilíbrio, a chave é a busca da conciliação entre as varias coisas que você gosta, umas mais, outras menos, e conseguir equilibra-las. Os seres humanos que conseguem esse feito (que não é fácil) tem uma tendência maior a felicidade.

Sempre quando um ser humano envereda para extremos, ele acaba tendo uma vida vazia, pouco maleável, limitada, desconfortável e infeliz. Não conheço milhões de pessoas, mas essa é uma coisa que eu sempre pude ver nos extremistas religiosos que conheci. A maioria deles se diziam pessoas felizes e realizadas, mas ao conviver com eles, no trabalho, por exemplo, pude ver, através de pequenas coisas, que boa parte deles eram pessoas infelizes, frustradas, que não desfrutavam (principalmente na juventude) de uma serie de coisas que os atraia em virtude das limitações que a religião que eles praticavam impunha.

"Ficar calma? Calma como? Diz pra mim, ficar calma como? Devagar como? Meu marido e as minhas filhinhas morreram e você ainda por cima quer que eu fique calma? Eu não consigo mais viver! Eu to paralisada, eu sou uma mulher aleijada. Será que você não vê nada disso? Quem, quem é você? Você deve isso ao Michael. Você ta com o coração dele, ta sentado na casa dele, transando com a mulher dele!". (Cristina Beck)  


Observando o personagem de Jack Jordan (Benicio Del Toro) podemos ver muito isso, como no fundo ele era uma pessoa infeliz, apesar de professar de forma acalorada a sua fé em Cristo. E como em vários momentos ele se vê em completo desespero por não encontrar respostas na religião para as suas duvidas.

Ao encerramento eu recomendo muito 21 gramas, para pessoas que gostam de filmes intensos, de forte emoção. Não é simplesmente um filme de drama banal, mas sim uma obra que é capaz de ativar a qualidade mais fabulosa que um ser humano possui: o pensamento.

Júnia Cidade: 21gramas: O filme conta com uma trilha sonora poderosa. A direçao do mexicano foi arrojada e fora do convencional. Fotografia muito boa e com angulos inesperados. Atuaçoes intensas. Roteiro imprevisivel e bem explorado. Um filmasso!.

Marcos Antonio: Sem sombra de dúvidas "21 gramas" é um daqueles filmes que merecem ser vistos mais de uma vez. O longa de Alejandro Iñarritu é intenso demais pra ser compreendido numa "tacada" só. Mais uma vez, a morte ganha papel preponderante numa trama de Iñarritu, que com personagens extremamente densos e de uma tridimensionalidade aterrorizante deixa o espectador embasbacado diante dos desdobramentos da história. O longa é incômodo e não o digo pela total ausência de linearidade do roteiro, mas pela densidade da história, por nos colocar de frente com personagens tão completos, complexos, tão fortes e tão humanos. Com uma trilha sonora perfeitamente encaixada, uma fotografia irretocável e uma dinâmica de câmeras incrível, Iñarritu faz de "21 gramas" uma obra-prima bem mais envolvente que "Biutiful", seu último trabalho a que eu assisti. Vale a pena assistir!.

Thalisson Ovelar: O que se pode esperar de um diretor que já em sua estreia repercute de forma tão estrandoza? Particularmente, não sou fã de Alejandro González, apesar de gostar bastante de seu primeiro filme americano “21 gramas”. São evidentes as semelhanças com seu filme de estreia “Amores brutos” (história fragmentada e violência sem pudor), mas não acho que seja um defeito, já que aqui tais elementos funcionam bem melhor, apesar de ter achado obvio que suas três histórias se cruzariam em algum momento (spoiler???). Dispenso comentários a respeito do elenco formado por integrantes do meu time de atores favoritos (são sensacionais). Pra quem procura um filme que foge dos massantes filmes hollywoodianos atuais, com certeza esse é uma ótima pedida. Respondendo a pergunta inicial, não sei exatamente a resposta, masnão espere muito dos demais filmes de Alejandro González, que comparado a esse são decepcionantes.

Título Original:  21 Grams
Elenco: Sean Penn, Naomi Watts e Benicio Del Toro.
País de Origem:  EUA
Gênero:  Drama
Tempo de Duração: 124 minutos
Ano de Lançamento:  2003
Direção:  Alejandro González Iñárritu

E o próximo Filme da Semana, escolhido pelo Thalisson é: "Os Intocáveis"!
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