A parceria formada por Martin Scorsese e Robert De Niro se fosse um quesito seria, com certeza nota 10, pois é uma das mais bem sucedidas da historia do cinema. Essa dupla dinâmica aliou seus respectivos talentos e o resultado foi uma serie de bons filmes que premiaram o publico com atuações impecáveis e direções de fino trato.
É impossível para uma fã de Martin Scorsese e Robert De Niro escolher apenas um dos filmes da dupla e destaca-lo como o melhor. Táxi Driver, Touro Indomável, Bons Companheiros, Cassino, entre outros. Seria um enorme prazer falar de todos eles, mas isso tornaria esse artigo grande demais, por isso resolvi escrever sobre um filme dessa dupla que (por incrível que pareça) não é tão conhecido.
Cabo do Medo foi uma produção de 1991, um remake da obra Circulo do Medo de 1962, que contou com um Robert De Niro perturbador no papel do psicopata Max Cady, e na época uma novata no cinema, Juliette Lewis, que deu vida a sua personagem, uma menina ingênua e pura de 15 aninhos de idade, e fez (pelo menos na minha visão) a melhor atuação de sua vida.
Cabo do Medo, alem de ser um dos melhores filmes de suspense de todos os tempos, serve como uma espécie de aula de ética. Quem cursa Direito tem obrigação de assisti-lo. De verdade, se você estuda Direito, pode ter tirado media 10 em todas as matérias, mas se você ainda não viu Cabo do Medo, sua formação já esta incompleta.
O filme mostra o quão prejudicial pode ser o desvio ético de um advogado no exercício de sua profissão, e no caso em questão, custar caro para diversas pessoas.
A trama conta a saga de Max Cady (Robert De Niro), um ex presidiário que cumpriu 14 anos de prisão por estupro. Na época do crime seu advogado de defesa Sam Bowden (Nick Nolte) recebe uma informação referente a vida pessoal da vitima do estupro. Esse informe alertava que ela era promiscua, se relacionava com vários homens simultaneamente. Tal conduta por parte da vitima poderia atenuar a condenação do réu. No entanto, Sam Bowden (Nick Nolte) estarrecido com aquele estupro e também o espancamento sofrido por ela, mesmo sendo advogado de defesa de Max Cady (Robert De Niro) oculta esse informe do promotor, do juiz e do próprio cliente. Ele se aproveita do fato de Max Cady (Robert De Niro) ser (na época do crime) analfabeto, para praticar esse ato, violando assim todo o código de conduta ética do advogado para com seu cliente.
No cumprimento da pena Max Cady aprende a ler, escrever, e ao ter acesso a seu próprio processo tomou conhecimento da omissão cometida por seu advogado. E assim nasceu a revolta, o desejo de vingança contra aquele que Max interpretava como sendo o grande responsável por sua pena de 14 anos.
É interessante notar como Max Cady traz a tona a fragilidade das leis, e como elas podem ser banais e inúteis quando indivíduos espertos sabem exatamente o que tem que fazer para manipular essas leis. Ao longo do filme, ele encurrala Sam Bowden e ate a própria policia nos limites das leis, conseguindo ate vira-las contra eles, se colocando na posição de vitima, e aqueles que ele perseguia na posição de agressores.
A direção de Martin Scorsese é excelente (pra variar), ele prende a sua atenção do começo ao fim criando uma atmosfera de tensão, com uma historia direta, sem rodeios, ótimas tomadas de câmera e uma narração simples.
Alem disso, Cabo do Medo é um filme bem inteligente. Ele traz uma serie de elementos culturais fabulosos. Por exemplo, é impossível não se fascinar com a intelectualidade do psicopata Max Cady. O conhecimento literário dele é incrível, de Henry Miller a Nietzsche. Sem contar a trilha sonora, que vai de musica clássica a Guns N’ Roses.
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“Melhor ficar sóbria. Se não esta se arriscando, porque sou um animal”. (Max Cady)
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Eu disse no artigo em que tratei do filme “Instinto Selvagem”, que em filmes certas cenas são marcantes, nunca mais as esquecemos. E Cabo do Medo está cheio dessas cenas. Vou destacar apenas duas, das muitas que esse filme possui.
Primeiro a cena do teatro, em que Robert De Niro contracena com Juliette Lewis. A cena toda é imperdível, toda vez que assisto esse filme eu volto essa parte pra revê-la. A interpretação de menina ingênua que a Julielle Lewis faz, com cara, olhar, fala e postura corporal típica das garotas dessa idade, é singular. E o De Niro, na mesma cena, se portando como homem experiente, literalmente “passando manteiga” no ouvido da menina. E em seguida, ele faz aquela simulação de sexo oral colocando o dedo polegar direito na boca dela. O olhar e a expressão facial da Juliette Lewis nesse momento é indescritível. E logo depois o beijo fantástico, é considerado (não só por mim, mas por varias pessoas, sendo indicação inclusive a premiações no quesito “melhor beijo”) um dos beijos mais bonitos da historia do cinema.
E em segundo, a cena em que Max Cady passa de espancado a espancador. Não vou me detalhar nela, para que o leitor caso ainda não tenha visto o filme sinta a emoção do momento. Só digo a você, preste extrema atenção nessa cena.
Se eu tivesse que apontar um ponto negativo na trama é o final. Acho-o adequado, mas um pouco fantasioso. No mais, eu recomendo muito esse filme, esta na galeria dos meus filmes preferidos. Porem, só assista se você tem nervos de aço e estomago, pois realmente tem cenas bem fortes de violência. Minha mãe quando assistiu a esse filme ficou horrorizada, ela ate quebrou uma das unhas de agonia.
E principalmente, se você é estudante de Direito, assista! Gastar duas horas da sua vida vendo essa obra será um grande investimento, é possível ver as brechas das leis, da policia, a artimanha dos advogados e o quão importante é a ética para profissionais dessa área, como de qualquer outra área.
Se você é estudante de Direito, a moral do filme é a seguinte, trate bem seus clientes, muito bem, seja honesto com eles, e não pense duas vezes em dar a sua vida pela causa que você esta defendendo, do contrario as conseqüências podem ser desastrosas.
Titulo original: Cape Fear
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis
Origem: EUA
Ano: 1991


